sábado, 19 de agosto de 2017

Estrear-se...

Aquele menino era feito de mágoas antigas. Uma sucessão de raivas envelhecidas pelo tempo. Ele era feito do que não lembrava e do que não esquecia: ambas as coisas a tecerem-lhe destinos e fracassos. A prisão era limitar o pulmão a encher-se pleno de ar. O cárcere era sentir pesos no espaço do coração. Uma sentença e uma punição por ele diariamente cumpridas. Aquele homem era feito de mágoas antigas. E não havia sossego para descansar-se dentro. Não havia espaços para aconchegar-se dentro. Ele era uma ininterrupta fuga dos inevitáveis. Vivia de desculpas e silêncios para não se sufocar. Calava esperanças e boas notícias com violências e outros boicotes. Adiava sua hora do óbito tanto quanto estrear-se na vida. Até que num descuido da tristeza se inaugurou para longe dos habituais escuros, desalojando com pressa seus abismos que lhe negavam os amanhãs. O peito tornou-se galpão de abrigar mil possíveis. O amor aprendia a lhe chamar pelo nome próprio. Mas sobre isto já é outra história.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sentido...

Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: caminho ao vosso lado e me ignoras; venho dar sentido à vida e recusas me agradecer. Me aproximo nos mais difíceis momentos e dou alívio aos que sofrem. Aliás, insensato, suplicas para que adie a fatalidade dos teus excessos. Culpa-me pelo inevitável. Veja, pairo além dos teus credos e da tua cor e isto porque estou em todos os credos e sou de todas as cores. Causo promessas e temores embora não tenha inimigos. Tantos ameaçam com meu nome enquanto poucos me festejam, realmente. Eu que sou sempre silêncio, hoje estou cá a dizer-te: lembra-te de mim para que do meu sopro não fujas e tampouco do viver tu escapes.

Prazer, eu sou a morte.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sobrenome...

O que não a matava por ela era morto: lugares, nomes, perfumes, histórias. O peito lhe era uma casa abandonada. As memórias, assombradas todas por arrependimentos. O destino era um mal entendido, visto que o amor ou lhe era falha ou falta, e um desastre a que sempre se dirigia com testemunhas e prévios atestados de óbito. Os signos do zodíaco deviam-lhe melhor sorte. Era herdeira silenciosa das repetições. 

Sentia-se a única neste mundo a conhecer com intimidade o sobrenome das tristezas.