sábado, 31 de dezembro de 2016

Que assim seja...

Que entre as folhas do teu calendário habitem seus novos sonhos. Que a partir de hoje os dias sejam mais seus. Que você se lembre que há sempre mais coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a sua rotina, mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que os passos sejam mais leves. Que tenha boa saúde para ser quem se é por inteiro e ir atrás do que se busca. Que a vida lhe dê bonitezas e caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o amor possa preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos. Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, corpo e alma. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades. Mais vôos e pés no chão. Sorrisos e cheiro de terra molhada, bebês, incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas. Que você seja dono dos melhores pensamentos sobre si mesmo. E que a gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos. 

Que assim seja...

(Guilherme Cardoso Antunes, vulgo "eu", em 04.01.2013)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Calendário...

Às vésperas de um novo ano, escutamos com maior atenção as interiores vozes que nos permeiam, ao amansarmos acumulados cansaços de um ciclo que se encerra. As verdades que nos sempre falam mas que abafamos por inúmeras razões, contam-nos agora com estratégica intensidade, das esperanças que retornam com fôlego e força para cumprirmos os compromissos e promessas que nos justificam sobre este chão. Assim, cabe à poesia trazer à claridade, as marés que nos compõem. E diz ela, primeiramente, que nos tornemos mais nós mesmos, ainda que para isso precisemos despedir uma boa parte do que somos. Que o espelho não seja causa de grandes importâncias ou preocupações mas, seja nosso reflexo, o fiel confessionário dos nossos contornos. Agigantemos os sonhos, patrocinemos nossas coragens, não respeitando as demandas da tristeza, mas acolhendo toda e qualquer lágrima que justa resolver nos visitar. Recusemos ao máximo com ensaiada disciplina, os círculos viciosos das paixões que nos custam saúde e equilíbrio emocional. Desapeguemo-nos do que tem verniz de amor mas é carência, medo, controle ou egoísmo. Aprendamos que a inveja é sintoma de imaturidade, devendo ser tratado quem sente com doses de generosidade e paciência. Aceitemos sempre - e desarmados - os elogios que nos dedicam, separando com prudência as sementes do bem querer das más ervas da bajulação interesseira. Quando necessário falar, cuidemos para não declararmos uma verdade que não tenhamos certeza que será verdade amanhã também. Saibamos que sem quaisquer objetivos e pelo acaso poderemos ser carregados. Não atribuamos ao azar o que é de nossa responsabilidade. Curemo-nos nas despedidas, curemos o próximo pelas chegadas. Que possamos ser como a gota d´água que, mesmo diante do imenso mar, ainda tenha o que lhe acrescentar. Que daqui pra frente possamos juntar coragem suficiente para aquelas decisões e riscos que a vida nos pede para nos fazer mais felizes. E se inevitavelmente e por acaso a dor em nós tardar, que por ela amanheçamos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

No varal das coisas ditas...

No varal das coisas ditas, estendo a gratidão aos olhos cúmplices que visitaram meu quintal ao longo deste ano. Agradeço a generosidade daqueles que nas letras em que costurei meus aconchegos, nelas também se descansaram. Agradeço aos que fizeram da palavra a ponte para afinados encontros. Aos que mesmo sem saber, tomaram minhas sementes para além dos meus limitados horizontes, expandindo-me nos literários reinos que transitamos todos. Agradeço por me permitirem ser um pequeno tradutor das suas imensidões, confessionário das marés interiores, delator eleito pelas próprias tempestades que acabamos por celebrar ao reconhecê-las no espelho da literatura. Agradeço àqueles que sei dos seus nomes e àqueles que de nada sei e que de alguma maneira igualmente me atravessaram. Peço dirigido perdão a todos aqueles que na minha vida pelas palavras os fiz pequenos, fazendo-me ainda menor por isto, ferindo pelo que deveria dizer quando nada disse ou pelo silêncio que deveria ser o único a ser declarado, mas por mesquinhez o calei. Que eu possa ser versão mais nobre de mim, refletindo mais as virtudes do que as sombras, nas palavras que pelas linhas e boca ainda me pertencerão.

Gratidão.

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dependesse...

Ele aguarda. A cerveja gelar. O pagamento cair. O domingo para esquecer. O e-mail. A campainha. A encomenda. O aniversário. O jogo do campeonato. O sexo casual. O resultado dos exames. O final do ano. O começo das férias. Cada noite de sono. Cada cigarro aceso. E a cada amor perdido, ele aguarda sem saber. E na rotina que diariamente o ignora, ele aguarda como se nada aguardasse e de tudo dependesse.

Ele se aguarda. Mas não sabe disto.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Anuncia-Te...

Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.

Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Perdas & Ganhos...

Afinal, o que ganhamos? O que aprendemos apesar das tolices? O que atravessamos apesar dos cansaços? O que celebramos? O que ganhamos e por que perdemos? Por que falta-nos generosidade e sobra-nos reclamação? O que celebramos, entãoPor que tanta cotidiana maledicência? Por que das invejas? Por que culpamos o outro e a vida pelo que nos dói? Qual momento assumimos a responsabilidade? Por que perdoamos apenas o que é fácil? Por que mais pedimos do que entregamos? Por que corremos pelos dias como se nunca fosse o bastante? O que ganhamos hoje senão o amanhã que se revelará espelho do que somos? O que ganhamos hoje senão o amanhã que revelará a verdade do que viremos a ser? Que ninguém se perca do significado.  

Que ninguém se perca do próprio sentido, porque o mundo começa e também termina a partir de cada um.

Amor...

Que amar nos seja um verbo constante.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vésperas...

E foi então que ele a notou e depois que a viu passou ali nada mais notar. Entre todas se destoava. Entre tudo se sobressaía. Teria a sorte lhe aprontado assim, tanto? Sem ensaio, sem dar aviso algum da sua visita? Ela estava ali, para ele e, delicada, veio com um sorriso de salvar-nos da tristeza, com perfume de levar-nos aos mais distantes paraísos. Arrebatado, lia todos seus movimentos em tons de encanto e mais fácil se apaixonava. Pensou no que dizer, mas não disse nada. Aliás, disse, ao respondê-la sem prestar atenção nas palavras e na pergunta solicita dela. Sem perceber que hoje e tão somente hoje ela atenderia a todos os seus pedidos. Ignorou saber pelo turvo fascínio exercido que aqueles vivos olhos castanhos a decifrar suas vontades e sua doce gentileza eram apenas truques para conseguir o seu intento. Vender. Ela era definitivamente o seu número. O da sua camisa. E assim se enganou.

Às vésperas do Natal, voltaria para trocar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és a semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão de areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me amor, como resposta para cada pergunta da vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O sol...

O amor revela-se o mais importante começo de nós.
Se fazendo preciso esperarmos
como que distraídos à porta de casa.
Como se nunca 
se ausentasse o sol.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Aconchego...

O meu amor
tem jeito de riacho e bebe da vida com as mãos
tem aconchego de rede
abraço de pracinha de cidade longe
e caminha como se cirandasse.

O meu amor
gosta de brincar no colo preguiçoso das manhãs
é digna de ser borboleta num final de tarde das primaveras
(talvez por isso se assuste tanto com as trovoadas)

O meu amor
tem cheirinho de café, de shampoo e de terra molhada - depende da hora
trança o cabelo como se ajeitasse caminho pro mar.
diz que não canta, mas fala poesia debaixo do chuveiro - eu já ouvi.

O meu amor
antes de deitar, chora porque reza
e chora apenas para continuar feliz.

(À Anna. 16.12.16)

Ao Amor...

Ao anjo que ancorou
em mim
o seu amor

À flor que me beijou
com seu hálito
de céu

À mulher que 
devolveu o peito 
ao seu papel

Ao papel em que
a descrevo um milagre
amanhecida

Ao teu corpo
que lhe conta 
meu corpo
a ser fiel

Aos teus olhos,
alma e peito 
dou-lhes por direito
a minha vida.

(À Anna. 16.12.16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Nó...

Viver era um nó delicado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Da dissolução...

caminhar dissolve as dúvidas

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Cantam...

Sabes, aquieta-se o tempo só para admirar-nos
e nos teus beijos em que renasço outro
e nos teus abraços em que refaço o mundo
calam-se os desnecessários verbos e outras mudas certezas,
pois, de sonhos falamos sobre a pele,
os desejos sopramos pelo ar.

Sabes, na tua boca bebo da própria poesia,

e os meus silêncios cantam todos para ti.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Diluir-se...

poesia para não se perder e
diluir-se no cotidiano
aprendeu a me acontecer
no tempo certo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida ele é seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas, passou a espelhar em si, amor. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou: a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e a sua vontade de recolher por lá amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do seu colo, confessionário. E dos seus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas a guardar em vidro bonito o seu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Dos (des)apontamentos sobre o amor...

amar é não ser nunca por inteiro 
não ser jamais suficiente: 
presença, tempo, outro. 
sentir a vida demasiado breve 

solução cega de busca para 
o que nos é incompleto 
temor em perder o pouco que se recebe 
e o muito que se ganha. 

medo de ser aniquilado por aquilo 
que o amor não é, 
sobrando-nos para qualquer serventia 
que não o amar. 

é querer morrer mais tarde, 
é precisar morrer mais tarde, 
é querer chegar mais cedo 

atenuar as pressas 
e sentir pressas. 

após sua partida, 
partimos nós, 

tornando inútil a existência do mundo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embora...

o amor
no meu corpo
habita embora
responda pelo
nome
de minha
amada.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Generosos...

Somos generosos dentro das mentiras que habitamos.
Visto que não saberíamos
ser contrários a isto:
questão de dolorosa sobrevivência.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para te amar melhor...

ando a salvar-me todo dia nos teus sorrisos.
no amor fiz canção 
a adormecer tuas ausências e 
apagar-me os escuros

deito-me apenas para os desejos estendidos no teu corpo.

às noites, em romaria 
venho visitar tua beleza.

sou um ser habitado por teu nome
procurem-me e nela 
e a mim me encontrarão

templo a dispensar-me as preces. 
não os lençóis.

inventei-te antes para te encontrar

escrevo por isso:
para te amar melhor.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Má proprietária...

Desconfiada e incomodada pelo silêncio, fazia questão de distrair-se com as inevitáveis vozes vindas do interior de si, a dizerem-lhe tudo, explicarem-lhe tanto, falarem demasiado sem resolver-lhe nada. O silêncio lhe era uma angústia porque ouvi-lo seria equivalente a escutar-se. O medo era de que pudesse ouvir sabidas feiuras e insuspeitas virtudes: tanto umas quanto outras jamais bem vindas desde miúda. O silêncio era uma liberdade que não alcançava. A liberdade que dizia não conseguir. A liberdade evitada sem suspeitar que evitava. Sua perteza e já começavam ansiedades e outras distrações. Ouvir-se seria ver-se. Ver-se seria sentir-se. E saber-se. Saber dos ocultos enganos que com a personalidade se confundiam. E despejá-los como inquilinos do próprio peito. 

Má proprietária.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Tempo lento...

As verdades acalmam-se sempre em tempo lento. 
Assim, seguem as tristezas a se diminuírem 
na razão direta do que dentro 
se revela.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Dezembrar...

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

(Valter Hugo Mãe in: A desumanização)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Para molhar...

Deus concedeu
para a vida árida e seca
sempre lágrimas
para molhar.

Deus nos deu assim
o alívio
e as esperanças.

domingo, 27 de novembro de 2016

Sem distinção...

A pessoa se atira ao precipício pelos seus próprios tropeços e crê que a vida lhe enviará brancas andorinhas para que numa se segure e, assim, salve-se da queda.

A realidade lhe manda urubus e ela, por isso mesmo, os ignora diante da espera pelo socorro que não enxerga porque crê.

O precipício a engolirá sem distinção de credo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tripas...

Disse que aprenderia sobre o amor à força de o observar. Pesquisaria-o como um animal de tripas à mostra. Haveria de o ressuscitar para si. Talvez espere que se acalme o tempo para deitar os olhos sobre o próprio peito despercebido. Cansada de rejeitar o mundo pela anulação, queria o mesmo, mas por conta das felicidades. De boca cheia de silêncios, era mais triste do que nós. Isto por conta da memória que a assombrava como uma velha morta. À espera do significado de não se despedir, andava a corrigir a proposta das lembranças só quando dormia. Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, para que voasse com a urgência grande de esquecer assuntos. Aprenderia sobre o amor à força de o observar. Como nunca fez: ao fechar os olhos e enxergar a casa excêntrica da sua própria alma. Haveria de a ressuscitar para si.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Grande...

Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, 
para que voasse com a urgência grande 
de esquecer assuntos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Elogio...

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Facebook...

Vou trabalhar, vou à academia, vou à faculdade, vou ao banheiro, vou à balada, vou ao proctologista, vou dormir, vou vomitar. Diretas, indiretas, frases de impacto, correntes, maledicências, incoerências, mimimis, blablablás e mais do mesmo. Gente pedindo paz e gente querendo confusão. Experts em economia, ciências políticas, falta de noção, sociologia, educação, psicologia, clichês, filosofia, babaquice, literatura, egocentrismo, coitadismo e polêmicas. Imagens motivacionais, animaizinhos, piadinhas, fotos posadas e posudas, gente bacanuda para além da inveja e do recalque, sempre por cima da carne seca. Pessoas sempre felizes, amigos para sempre, lugares paradisíacos, festas inesquecíveis, jantares maravilhosos, viagens fantabulásticas. A família da propaganda de margarina, namorados de propaganda de pasta de dente. Fãs instantâneos de quem acabou de morrer. Comentaristas políticos, futebolísticos, religiosos, de teledramaturgia e da vida alheia. Citações do escritor da moda, do pensador da época, poemas açucarados, frases de música engajada e mela-cueca. Briga de egos. Guerra de vaidades. Polêmicas. O politicamente correto. Textões. Textões. Textões. Convites infernais para joguinhos, páginas, comunidades, eventos e para o raio que nos parta. Afetações, intolerâncias e muita, muita burrice. Entusiastas das banalidades e de tragédias. Muitos animais se levando à sério demais e outros tantos bichos não catalogados.

Se nada disso houvesse, nada sobraría(mos).
Cidade fantasma.
 
Silêncios.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Reluz...

talvez construa o amor
entre as óbvias
coisas às quais não
sabemos dar valor.

tudo bem.
sem o entendermos direito 
a beleza sempre
comparece.

por isso, 
o amor reluz por dentro da palavra,
do silêncio,
do abraço e
da saudade.

sábado, 12 de novembro de 2016

Alimento...

e por não existir o amor perfeito
justamente por isso
pode servir a ela
de alimento.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Coisa difícil...

buscava o próprio perdão
pelo contínuo erro de permanecer
diante do seu predador
por tão longo tempo.

sobre o perdão: o merecia. sempre.

pena que fazemos da entrada no céu
uma coisa difícil.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Dos estilhaços...

Por não lidar com os fantasmas que carrego, mato-me aos poucos, envenenando-me com o que me afogo, anestesiado para o que não sou. Cego-me para dizer que as coisas são cinzas por sentir que não mereço enxergar as cores. E por não conseguir amar quem amo, o destruo abraçado comigo, dirigindo-nos para a violência dos abismos. Pois não há desfecho que não seja tragédia, e não há "durante" que não tenha sido uma farsa. O tempo em mim se repete como castigo. Os ponteiros servem-me apenas para magoar. As virtudes que não sou matam-me por capricho. Sangro pelos medos todos e por espinhos outros que convenientemente nomearam sentimentos.

domingo, 6 de novembro de 2016

Por dentro...

Onde estão as nossas asas, pai? Por que não se é passarinho?

Voa-se por dentro, filha. E este é o nosso maior desejo, embora por vezes nem suspeitamos que seja. Acreditar nas asas é justificativa para lamentarmos sua ausência e por isto permanecer onde estamos.

Voa-se sempre por dentro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Inundou-me...

A ausência maior a que me sujeito é a minha. O único medo que suporto é o alheio. O tempo que tenho está perdido. O pecado que me orgulho não cometi. O espinho que tolero arranha o outro. A cura que conheço é a de terceiros. O único conselho certo não escolhi. A confissão que me sujeito não é verdade. A verdade que confesso já descartei. A única aposta que faço eu já perdi. A única diversão é aquilo que sonhei. A única esperança é o amanhã além daqui. 

 A única lágrima que permiti me inundei.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Da confusão...

Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.

domingo, 30 de outubro de 2016

Das pedras...

Com quanta força e com qual intensidade precisa a vida se chocar em nós para despertarmos das ilusões? Será preciso ardermos por inteiro para interromper caminhos que não aceitam nossos pés nem o nosso coração? Quão inevitável violência cabe a nos aguçar quando nos arrasta para sempre-longe dos nossos habituais confortos? A flor carece apenas da mais sutil mudança de luz ou umidade para acompanhar o tempo e as estações. O homem é o irmão mais velho das pedras.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Poemetimize...

...
Nasceu.
O lançamento do projeto fruto da ideia de costurar a literatura ao seu encontro mais elegante.

A caligrafia dos gestos e dos sonhos que todos carregamos.
A criação, o estilo e as narrativas de que todos somos feitos.

'Poemetimize' é isto!
 
Aos olhos, o convite.

É tempo de se dar de presente a literatura no próprio corpo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não era nada...

O medo era como sonhar sempre com abismos. Contrariava coragens quando adormecia. E na beirada de si, via-se jovem destemida a cair pelas incertezas que tinha. Jogava-se toda a noite entre os silêncios do quarto e do corpo aos abismos que lhe convocavam. Sonhava com as verdades que não alcançava. O despertar obrigava-lhe reconhecer coragens para o cotidiano duro que a impedia de sonhar. A coragem era, na verdade, a queda e o sonho. 

E o medo, não era nada.

(Guilherme Antunes & Carolina Ruiz)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sempre por pouco...

Ela morre de medo de poder ser ela mesma. Ela morre de medo de se encontrar e por isso arruma todas as desculpas para continuar onde está. A sua tristeza é por reconhecer-se apenas diante do espelho ou de um elogio qualquer. Contradizer-se é a única coisa que sabe: para os outros lhe sobra confiança e direção, para dentro os seus vazios e angústias. A dizer-se sempre certa e sentir-se sempre errada. A sentir-se numa permanente dívida consigo pelo que não havia sido e por quem se permitira ser. A sentir-se em dívida consigo porque sempre lhe falta, porque nunca lhe é, porque sempre por pouco. Ela não lembra como nasceu. O que sabe é o que lembra e o que lembra é estar por aqui desde há muito tempo. Como num sonho em que simplesmente se está. Agarra-se às memórias como jeito de saber-se, como algo para contar aos outros e dar-lhe consistência. Apega-se ao que conta arrastando o passado que acredita ter sido como tal para que hoje ela própria possa ser. E engana-se por isso, ao contar a si do que guardou com partes manchadas pelo que doeu ou remendadas pelo que preferiu esquecer e, então, assim lembrar. Ela é protagonista do que não existe mais, pois está sempre a mudar. Ela não é mais a mesma, nem pode ser - ainda que tentasse. Mas vive presa aos enganos de ontem.

domingo, 23 de outubro de 2016

E que não perdôo...

O que foi que fizemos para sermos aquilo que não esperávamos? O que escolhemos para sentirmos o que não queríamos? O que nos aconteceu neste meio do caminho sem meios termos em que faltamos tanto para chegarmos a nós? Às casas abandonadas retorno como se pudesse corrigir a rota das felicidades ao encontrar-me comigo. Mas, com quem me encontro senão com fantasmas e agressões? 

Ameaço constantemente o meu futuro por conta do que sou. 
E que não perdôo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dueto...

O que tenho aos poucos compreendido é a dinâmica do perdoar e da gratidão. Ambos urgentes. Ambos necessários. Ambos essenciais. Onde o primeiro se encontra e o segundo nos alcança pouco depois. Sem a gratidão sincera ou o perdão por inteiro e impossível será dissolvermos os nós que ainda nos prendem ao passado. Carregando-o, inocentemente o repetiremos de diferentes formas e projeções, atraindo-o através de outros personagens e cenários aquilo que ainda não dispensamos. Sem a gratidão e o perdão para ultrapassarmos, caminharemos com o peso do que há muito não nos serve, sendo arrastados sempre para trás. Seremos casa povoada de fantasmas a cobrar-nos a liberdade que a eles não demos dentro do peito. Ao libertá-los pelo perdão, ao deixá-los na memória quando gratos, o presente será pela primeira vez, então, inédito.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cravada...

A palavra se atravessada na garganta, cravada no peito, amarga na boca, embrulhada no estômago, ressecada nos olhos, empoeirada no tempo, magoada no ontem, dolorida na alma, deverá ser tratada com as urgências necessárias e coragens essenciais para a sua despedida.

Do contrário vira doença,
cárcere de encantos
e milagres.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Dissolução...

partilha das minhas raízes com os lobos
arranca-me os trevos e toda a sorte
escava meu lugar na terra
devora-me, antes, as partes na tinta negra das noites
enamora dos meus cansaços
humilha-me com tuas ásperas palavras
engana-me com teus úmidos olhos
crava-me as feridas e a dependência
decreta-me a falência dos órgãos e da lucidez
diz-me burro, pouco, insuficiente
sacrifica-me aos teus deuses, pobres diabos e egoísmos
desfaz-me de mim a cada escárnio
despeça-se e deixa-me sozinho junto às sarjetas

só conserva a tua própria vida
para que por ela eu me torne outro
e sendo outro, amanhã
eu jamais te reconheça.

sábado, 15 de outubro de 2016

Dique...

Diante do próprio amadurecimento, buscamos fazer o que é melhor - ainda que nitidamente não seja. Tornamo-nos inconscientes por liberalidade, quando queremos certezas que a vida e o outro não poderão nos dar. Queremos garantias de que seremos amados amanhã, de que não seremos deixados antes do café, de que as coisas estarão como gostaríamos que estivessem. Fazemos escolhas cruéis sem nos darmos conta, ajustando-nos à rotina e ao morno, à mágoa e ao mesmo. Ignoramos verdades que mudam conforme o tempo e os sentimentos. Queremos engessar promessas, laços e permanências. Queremos o que não nos é possível. Assim, permitimo-nos aceitar o que antes jamais aceitaríamos, em nome da convivência e de uma falsa sensação de segurança. Assim, doemos em silêncio porque garantimos o jantar a dois. Assim, doemos em silêncio para evitarmos dores maiores no palco que ainda nos aguarda. Adiamos tragédias porque acreditamos que hoje não é o dia para se estourar o dique.

Apenas adiamos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Radiografia...

[...] deixou de lado os noticiários, pois, para que soubesse das más notícias que nos leva e traz o tempo, bastava que lesse a radiografia dos seus pacientes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A própria luz...

A fragilidade da vida oculta segredos e inteligências antigas. Até a fundura do homem e do tempo, depois de contornado o engano de haver alguma alma estragada, suspeita-se que a consistência é aquela que não se vê. O amor desfeito revela apenas o quanto há dentro para habitar amor. As dúvidas contam-nos sobre o compromisso com a verdade. O medo aponta-nos ser o guardião do próprio destemor. A fragilidade não nos apronta caprichos, não nos guia ao tropeço ou à quietude da dor. Devemos discernir pelos contrastes: a ausência de pulsação fala-nos sobre o quanto ainda há para pulsar. A fé não será dada pela certeza, mas por sua falta. Protestamos por não nos sabermos muito valentes. A confissão é que estamos à mercê das interiores sombras que nos desabitam e somente delas. Isto porque para cada uma há de termos a nossa própria luz.

sábado, 8 de outubro de 2016

Prateleiras...

Acreditamos que as nossas opiniões são resultado de anos de ponderações e análises racionais quando, de fato, são fruto de informações que confirmam aquilo que acreditamos, ao mesmo tempo que temos por facilidade ignorar conteúdos que desafiam o que já conosco carregamos.

Queremos combustíveis para as nossas crenças: sites, palestras, livros, portais, pesquisas, opiniões que pré filtrem o mundo para unir as visões de mundo existentes. Nós os consumimos não apenas pela informação, mas pela confirmação que nos dão a sentirmo-nos consistentes.

Há uma tendência em procurarmos por informações que confirmem o que somos e como enxergamos a realidade, pelo desejo de nos sentirmos certos o tempo inteiro - ainda que venhamos a negar! - e por conta do desejo de nos vermos coerentes sob a luz que nos projetamos. Isto se chama "viés da confirmação".

As prateleiras da sua estante e os históricos do seu navegador são um resultado direto disto.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quão cegos...

Queremos vender a verdade que construímos. Queremos vender a imagem que moldamos. Queremos vender, e que nos comprem. Que nos aceitem para que nos aceitemos, que nos amem para que nos amemos. Invertemos a ordem condenando-nos às superfícies. A profundidade, ignoramos pela conveniência dos medos. Sabermo-nos frágeis, raivosos, dependentes, carentes - ausentes de nós - leva-nos a convocar ansiedades, compulsões e demais distrações para não lidarmos com as dores e monstros que carregamos calados para que não nos ouçam e não nos revelem, ainda que permaneçamos nós os seus reféns e eles sob o risco das suas próprias rebeliões. O outro será sempre facilitador para nossas verdades. O outro convida-nos à nós mesmos como espelho que comumente recusamos ao acusá-los quando neles nos reconhecemos. A culpa será sempre do outro, a responsabilidade jamais será minha. Assim, pularemos de galho em galho, de amor em amor, e tudo para não sermos flagrados por aquilo que somos. Aceitamos metade negando a outra, vivendo menos sem saber que menos vivemos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Outro dia...

A vida é uma desobediência. Uma falta de respeito. Uma afronta. Um convite. Uma pornografia. Um recato. Um namoro. Um revide. Um poema. Um amor com defeito. O poente. Os teus cabelos. Um café. O desamparo. Outro dia.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Para medicar-se...

Temos por hábito medicar tristezas e excessos da alma quando esta nos assusta. Isto pois a consciência se mais abundante revela-se em nós sua própria curteza. Medicamo-nos por conta dos paradoxos. Ansiosos para tornarmo-nos menos mortos mas sem vivermos por completo, e a tanto fugir do que sofremos que com o sofrimento nos encontramos: a vida decidimos então não poder andar. Nós, atrapalhados de sermos gente, para as urgências da cabeça e do corpo anestesiamos a cabeça e o corpo, agravando as distâncias entre o que somos. A religião, o poema, o remédio são formas de boa fé. De insistências. De se perseverar para ocupar nossos amanhãs. Isto porque nada acontece à revelia do amor ou da morte. Mas, por mau hábito frequentamos os destinos já medicados para as tristezas e para os excessos. E tão pouca gente consegue ser grande no tamanho da alma. Teimamos a contar-nos de nós coisas admiráveis pelo receio de nada se ter de admirável. Por isto, enganados pelo que acreditamos e nunca pelo que somos, adoecemos verdadeiramente de profundas e quase fatais tristezas. 

Coisa esta, sim, para medicar-se.

sábado, 1 de outubro de 2016

Aniversário...

Há exato um ano eu vim a morrer. Com a deselegância de um afogado, soube de minha morte como não soube da minha vida. Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo sem esperanças por reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras decretaram-me o óbito. Sujeitei-me cortar nos próprios estilhaços pelo abismo que criei ao atirar-me junto aos futuros. Morri sem anúncios, avisos ou suspeitas: como indigente, calei-me pela vergonha de haver morrido. Calado por não haver aprendido o perdão. Calado por não haver sido fiel ao peito. Calado pelo passado atravessado à garganta. Calado por ver-me trancado à minha particular caixa de Pandora. Adoeci da morte que não planejei para curar-me da vida que não vivi. Há exato um ano que venho eu a renascer. Com a deselegância de um homem sempre atrasado; como promessa que se carrega para cumprir-se. Renasço entre às primeiras horas dos meus amanhãs. Renasço entre os medos que enfrento por ter me assustado quando morri; entre os sonhos estranhos que noturnamente despeço; entre as ilusões que cotidianamente despedaço; entre as sombras que abraço e as verdades que desminto. Renasço por haver feito as pazes com a lucidez. Renasço por haver-me tempo para ser outro no espelho que me vejo. Renasço carregando as dores todas de um parto reincidente. Renasço por dispensar anjos e demônios que aguardam-me desistente. Não o sou. Não o serei. Renasço porque seria-me pouco manter-me morto. Renasço por não haver saída ou fuga senão renascer. Aniversario a minha morte porque tenho vida para isto. E hoje sei, ando a morrer um pouco a cada dia para poder viver. Viver melhor.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

As saudades curtas...

Parecem estúpidas as saudades curtas. São certamente insensíveis e solipsistas, perante as saudades longas e profundas, que não têm cura nem, por serem insolúveis, têm a esperança de, um dia, deixarem de existir. São saudades de uma hora, de um almoço perdido, de uma tarde interrompida. Parecem irracionais e ingratas, estas saudades curtas, de que sofrem as pessoas apaixonadas e felizes ou infelizes. Mas não são. Daqui a um X número de horas, vou morrer. Daqui a um Y número de horas, vai morrer a Maria João. Morra quem morra, com a maior ou mais pequena das antecedências, o certo é que o tempo da vida e da saudade está contado. Cada hora que não estou com ela está para sempre, definitivamente, finitamente perdida. E é daí que vêm as saudades curtas do amor, que tomam cada momento por uma vida. Só por amor se vive assim.

(Miguel Esteves Cardoso)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O próprio peito...

Comprometidos com o tempo passado, presos ao nosso próprio futuro: entre todas as possibilidades e possíveis combinações, nós somos o que poderíamos ser. Não nos sendo possível sermos outros, aceitemos as versões que compõem a nossa história, aceitemos os lados e avessos que ora carregamos ora nos carregam. Ao navegarmos no rio do tempo, sopremos nós a favor ou rememos contra, somos e seremos sempre o nosso próprio destino.

Assim, sejamos generosos conosco, ainda que nos percamos entre as nossas marés. O melhor lugar para aportarmos será, se permitirmos, em nosso peito - a nossa casa.

domingo, 25 de setembro de 2016

Quem...

Quem ama, veste-se de poesia como o jardim se veste de flores. Quem não sabe do Amor, veste-se de palavras como o homem envergonhado veste sua velha roupa. Quem ama, põe-se de cores como o sol que colore o céu ao final da tarde. Quem não entende do Amor, enfeita-se de cores para gritar qualquer coisa que em si não lhe pertence. Quem não ama, contenta-se com esquinas. E quem sabe amar, sabe que o mundo inteiro lhe pertence.

(Do meu livro: "A Ilha de um homem só" da Editora Penalux)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Compra!

Tem gente que compra.
Tem gente que não quer comprar.
Tem gente que diz que vai comprar e compra.
Tem gente que diz que vai comprar e não compra.
Tem gente que diz que vai comprar e esquece.
Tem gente que diz que vai comprar e desaparece.
Tem gente que se enrola pra comprar, mas compra.
Tem gente que te enrola pra comprar e não compra.
Tem gente que jura de pé junto que vai comprar e some.
Tem gente que diz que só pro outro mês, senão morre de fome.


Dedicatória bacanuda.
Preço bacanudo.
Conteúdo, capa, envelope, tudo bacanudo.


A quem interessar, chama-me:
guglicardoso@gmail.com
http://www.facebook.com/ailhadeumhomemso
.
.
Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

(Franz Kafka)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A meu respeito...

A alegria é um corredor que distraído atravesso. Escrevo para expandir-me do lugar que me encontro: jeito de viver duas vezes um pouco melhor na segunda. Reescrevo-me conforme o passado que ainda me dita o que não sou, pois, o que é o agora senão uma reedição incompleta de mim?  Na ordem rebelde das coisas, fixado na teimosia e na incompreensão, insisto em ressuscitar o que deveria manter morto. Pesa-me tudo aquilo que dou vida e revisito: cenários, diálogos, tristezas, monstros que sabem horríveis verdades a meu respeito. E o medo que não atravesso é o medo que alimento. O medo que alimento é o medo que tenho de atravessar-me. Mantenho-me então imóvel, a espera de que a solução prenda-se à tempo nas teias de vida que sem querer acabei por criar.

E paciente - o silêncio desconsertado de tudo ensaia-me a coragem no poema.

sábado, 17 de setembro de 2016

Será?

não duvide,
contrarie, argumente
ponha em xeque
a verdade de um poema.

porque mesmo não o sendo verdadeiro,
real, factível
será todo ele sincero:

e isto
porque feito de sangue
porque feito de nuvem
porque feito de sonho

isto
porque sempre
inocente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cadente...

No amor, suas palavras eram estrelas cadentes,
por lhe prometer realizar
os desejos todos
quando no peito,
nada mais
quisesse.

(o silêncio no amor era seu céu)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sul da Ilha...

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

(Carola Saavedra)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Tal qual...

parece-me que apenas
a eternidade bastaria:
calar as marés, saciar-me com
o silêncio e despir-me das tensões.
mas sou filho do tempo -
de mãos vazias me despedi
de mãos vazias regressarei


eternidade é palavra
vazia
tal qual eu.

domingo, 11 de setembro de 2016

Amargo...

Não, eu não sou um cara legal. Afinal, do que sabem os olhos quando não convivem comigo? Eu sou uma coleção de manias, pecados, neuroses, defeitos, esquisitices e encrencas que enganam muito bem o espelho, nos elogios de que me sirvo como terapia de que nada me serve. Quer exemplos? Sou um ressentido; lembro daquele dia cinza que você tingiu o meu céu em agosto de 1946. Sou de arder em azia pelas palavras que você disse e que eu não digeri bem naquele recreio da 6ª série; sou de me consumir em silêncio enquanto em alto e bom som prego sobre o perdão. Guardo cartas, imãs de geladeira e rancor, muito rancor. Cada pisada no meu pé e eu viro monstro. Uma ofensa tua que me corte equivale a trezentas ofensas minhas a te massacrar. Sou bem justo, como você pode perceber. O tratamento aqui se dá como se eu fosse a alma mais pura e você, o mais sujo vilão. Pinto ares de apocalipse pra qualquer vento mais forte. Cobro a cura dos meus arranhões quando não me preocupo em evitar tuas dores. Clamo vingança pelo ego doído enquanto verso a compaixão como minha natureza; isto quando me convém. Uso da violência para calar fragilidades e das palavras para conseguir o que eu quero, sem pesos ou medidas. Meus ciúmes são sintomas de controle; minha inveja é reflexo da pobreza; meu mal-querer é fruto de antigo coração partido. Sou demônio disfarçado de arcanjo que aprendeu a sorrir somente pra sorrisos receber; que aprendeu a falar dos milagres como digno de todos eles; que fala virtudes como se falar fosse o mesmo que vesti-las; que diz amor nas linhas para atenuar as faltas na carne. Troco qualquer nobre valor por conveniências que pro meu orgulho interessam. Guardo no bolso, mentiras, gentilezas, amantes, histórias e outros prêmios que uso para me enfeitar e me deixar bem aos olhos dos outros, enquanto silencio egoísmos e feiuras, jogando tudo pra debaixo do tapete. E pra que varrer se eu posso jogar a culpa em alguém? Acreditar que o inferno são os outros e que o mundo gira ao meu redor me absolve dos estragos que faço no jardim alheio. Mas você não vai perceber os meus avessos, porque comigo você não dura muito tempo. E saiba: minha bondade é apenas um verniz, uma fuga, propaganda, degrau em que piso para me sentir o mais alto dos mortais. Por debaixo da fina camada de doçura que fácil se arranha, há um gosto bem amargo que guardo em mim, difícil de engolir. Sou cego de alma, como eu jamais pude notar.

(Do meu livro "A Ilha de um homem só" publicado pela Editora Penalux)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Formalidade...

Mas como a gente chama alguém que foi embora? Alguém que está longe, alguém que não está? A distância deveria imediatamente impor um tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a distância. Mas como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao meu lado, há pouco deitado ao meu lado, na minha cama, onde todo dia, todas as noites, algo tão íntimo como dividir a cama e os lençóis da cama quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá, abertos, escancarados, com suas manchas e sua noite impregnada. Como alguém sai da cama da gente para a formalidade?"

(Carola Saavedra)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando serenos...

deitam teus lábios nos meus
repousam teus olhos nos meus
e então finalmente desperto,

a envolver-me em rede tecida pelos milagres 
pequenos e cotidianos
estes! que nos permite enxergar o amor
quando serenos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Labirinto...

Não. Eu não estou satisfeito e talvez eu nunca vá estar. Eu não a visto porque não me cabe; ideia que ocupa lugar na alma mas que não preenche. Parece que essa estranheza, essa inexatidão de mim, essa metade com que calculo minha vida inteira, essa falta e esse vazio me dão um sentido torto; uma direção avessa, uma fome que me sacia por esquecê-la. Sou o mendigo que não quer abandonar sua pobreza. Sou o sofrer que não quer despir-se da tristeza. Eu sou a cobra que persegue a própria cauda e a si inteira devora. Eu persigo horizontes e me canso parado; reclamo do que me falta por ignorar o que tenho; reclamo da luz por me assustar com as sombras. Sou ampulheta que areia devora o passar do tempo; sou o amargo descontente por não ter achado ainda o meu traço, o meu passo, minha canção, o meu par. Sou ingrato ao jardim pelas sementes que poupei. Sou ingrato à boca pelos sorrisos que não mereci. Sou também o medo, a desconfiança, o meio amor, o mero acaso, a meia entrega, o vazio todo, o inexato, a incerteza. E me despeço todo dia dos meus amores. Ensaio as perdas todo dia ao nascer do sol. Vivo a me recuperar dos pesadelos e me convalescer das ilusões. Eu sou a fome a recusar o alimento, o náufrago a não querer mais salvação. Distraio-me com qualquer labirinto e me perco com qualquer distração. Sou daqueles que não sabem o que querem por saber bem o que me topa, o que me serve, o que eu mereço. Coleciono manias, carências e angústias no porão de mim em que verdade envelheceu e onde o amor desbotou. A loucura e o sereno vivem dentro, a paz e o desespero são o meu reino. Sou eu o velho rei, querendo fugir do próprio trono a tropeçar no próprio manto.

sábado, 3 de setembro de 2016

Meu maior medo...

O que custa é acreditar naquilo que se tem, quando todos os dias, ao longo de longos anos, se consegue encontrar esse amor que se procura, na pessoa que se ama e no lugar e no tempo - aqui, agora, daqui a bocadinho - em que mais gostamos de encontrá-lo. Hoje a Maria João e eu fazemos doze anos de casados e a única esperança que eu tinha - que se tornasse mais fácil acreditar na sorte que me coube na pessoa que ela é e na cegueira de olhar uma segunda vez para mim - acabou por ser mentira. Há um castigo para tudo: até para a maior felicidade. É o medo não só que tudo acabe mas que se descubra, de alguma maneira, que nunca tenha começado. Por exemplo, se ela se apaixonasse por outra pessoa. "Não vai durar, não pode durar, é bom de mais para durar": é isto que repito no êxtase da minha alegria roubada ao sol, como se o nosso amor e a nossa vida um com o outro fossem um prazer retumbante com um fim à vista, naturalmente aceite quando chega, como comer um gelado. Mas dura e, quanto mais tempo dura, mais medo tenho que esteja mais perto de acabar. Não há habituação possível a esta felicidade. Não há conforto nenhum na passagem dos anos por este amor. Cada vez mais, torna-se a única coisa que peço a Deus e a ela: Maria João, por favor, não me deixes nunca. 

(Miguel Esteves Cardoso)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cafajeste...

Leva-se tempo para nascer entre o comum dos homens, original canalha. Assim como a natureza inclina-se em suas demoras para desenhar perfeição nas paisagens, igual se dá a construção do caráter genuinamente cafajeste. Ainda mais o cafajeste versado nos lirismos como meio e fim. Un hombre com o olhar de um Nelson Rodrigues aliada à paixão de um Vinícius. Um homem de sagrado ofício nos encantamentos da mulher, eivado de exclusivas dedicações às palavras como tentação e convite; com a precisa sutileza a seduzir, nos labirintosos caminhos da paixão, a alma de uma fêmea. Aliar os carnais desejos à poesia é uma daquelas raras probabilidades matemáticas que abençoam os poucos e únicos canalhordas da modernidade. Uma alquímica combinação de predicados e dons, a desenhar de forma ideal dentro do poeta, delicioso e sonoro canalha. Crê este homem - fruto do lírico pecado - ser a poesia sublime pretexto para as entregas. Crê também este homem, que a poesia nasceu mulher. Pois fruto do encanto e do desejo, impreciso e imperfeito, busca através do sagrado feminino, oculto nas curvas das letras e da mulher amada, dedicar-se e ser inteiro; ainda que a descarte no dia seguinte como páginas já percorridas de um livro já conhecido. Afinal, todo personagem em sua história tem seu tempo e sua vez. Ao poeta-canalha filho do tempo e dos desencontros, o que mesmo importa é a imutável natureza que permeia todas as fêmeas, e o inspira; o amor abstrato e imenso onde navegam seus corpos e movimentos, e que o seduz, para além das formas e nomes e telefones que coleciona. Assim se atreve, sintonizando alma com nudez, sexo com redenção. Alimenta-se das luxúrias que a linguagem nos concede para, tal qual serpente astuta do paraíso, envolver sua dama e presa nas artes do convencimento e da entrega. Deita-se a mulher pretendida na cama da poesia.

(Texto do meu livro: Teoria Geral do Desassossego)