sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ponteiros...

Denuncio-me exatamente no que oculto. O amor deixou no lugar sua própria interrupção. Assim continuo: pelas beiradas da memória, no vazio do peito, no núcleo insuportável das saudades, na negação do que sou pelo que deixei de ser. O inferno era o único habitat que sabíamos. O veneno, o alimento a partilhar. Permiti morrer ao máximo, ao despir-me do amor próprio, da lucidez, do equilíbrio para que você coubesse em mim. Agora, exijo da vida reparação pelo sacrifício. Exijo ao nada que me espreita o ressarcimento pela loucura que me fragmentou. Denuncio-me exatamente no que oculto. As angústias são tudo o que sobrou. Os sonhos ruins. Os fantasmas. A terapia. A raiva. Os medos. O seu nome a coroar o que não se perdoa. Isto porque insisto em permanecer nas feridas abertas pela violência a que nos destinamos. Porque a atualizo nos meus sintomas para celebrar o amor e ainda mais a tolice. Convoco-me a continuar o que se acabou. Denuncio-me exatamente no que oculto. E repito diariamente minha incompetência para dissolver os nós que me atam ao passado. Os nós que ressoam no corpo, na paz e no tempo.

Os ponteiros passaram, mas você não passou.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Abstração...

Não cabe julgarmos o presente do escritor pelo que ele escreve, pois poderemos olhar para o seu passado, para o futuro, para o possível ou para os seus sonhos. E não saberemos se estamos a olhar seus atuais tempos verbais, sua própria imagem ou a nossa própria projeção.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Esquina...

O que ela queria era
um futuro a dois quarteirões
de distância com o seu amor
a esperando na esquina.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A outra preta...

Disseram-me os espíritos que me cuidasse. Uma preta velha num terreiro, semanas atrás. Ontem, o recado dado no bar por um amigo através de sua mãe. A cerveja diluiu o impacto pela repetição do aviso. A luz que atravessou a janela do quarto hoje pela manhã trouxe de volta a preocupação. Cuidar-me como? Poderia adoecer, perder o emprego, um dos pais, o amor da minha vida, ser despejado. A lista seria infindável caso fizesse uma. O que gostariam que soubesse? Não penso que receberia uma notícia fatalista sem chances de alterar minha rota de colisão com o que quer que fosse. De nada serviriam as previsões e os profetas senão para angustiar-nos diante do inevitável. Deus seria um sádico a adiantar-nos inescapáveis capítulos. Ou fosse exatamente isto, mas um convite oferecido, não por um Deus de humor duvidoso, e sim por estrita compaixão. O convite estaria um pouco além dos avisos e notícias. Um convite de nitidez apagada pelo medo e pela ansiedade. O convite seria a entrega. A prescrição dos mensageiros seria para que venha a me cuidar pelo cultivo da fé. O conselho dado revela-se maior: aceitar o vento e as marés; perder a tolice de querer controlar o que não me é possível; compreender que as tempestades são passageiras e manter-me no equilíbrio diante dos fatos.

A preta velha disse-me o que dizia minha outra preta velha, minha avó: aquilo que não tem remédio, meu filho, remediado está.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Mordaça...

O medo era cotidiano; impresso nos pequenos gestos; infiltrado em triviais diálogos. Sua presença era tolerada e visível apenas por mim, já que os outros se ocupavam com seus próprios temores. Não lembro quando me viciei no medo, como um lugar a que sempre recorri entre minhas metades. O medo era a ausência do amor como uma carta de abandono deixada em cima da mesa. O inequívoco sinal da minha incompetência para ser e estar. Mordaça a impedir-me de ouvir as esperanças. O medo nutriu-se do tempo e dos amores que não vingaram. O vazio a preencher-me o peito. O peito a denunciar-me triste. A tristeza a revelar o medo. O medo era cotidiano, como todas as outras coisas. Uma covardia, a levar-me para longe sem permitir o amor poder assim me reencontrar.

domingo, 18 de junho de 2017

Padecimento...

Padeço por aquilo que já acabou. Anuncio discretamente as saudades. Denuncio meus medos. Revisito tristezas. Reincido nos erros. Prevejo o que nunca será. Sinto culpas de validade vencida. Calo silêncios a força. Enveneno os afetos. Ando em círculos, dou murro em pontas de faca, ouço o tédio das paredes. E me anulo de maneiras incríveis.

Reconheço corpos e memórias, diariamente.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eclipses...

É preciso convocar os demônios às palavras. Como inquilinos das coisas tristes a soprar-nos o que ocultamos. Se os anjos iluminam os óbvios, os demônios incendeiam as verdades. Porque carregados de nuvens e vales morremos no meio do caminho para nós mesmos.

E o que enxergamos senão sempre debaixo dos eclipses?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ele mesmo...

Abandonado aos excessos em razão do que lhe faltava; o sono entorpecido pelas repetições do que vivia, como própria defesa, doía-se para evitar doer; perdia-se para evitar perder-se. Sem previsões para as alturas, seu medo era de tornar-se menor do que ele mesmo. Contornava diariamente as exigências da angústia que lhe convocava ao nada. As paixões sendo a medida de todas as coisas tornou-lhe por isto um escravo. O vôo era sempre um raso a conceder breve anúncio das alturas. O álcool lhe era uma porta, o lsd lhe era janela, o sexo lhe era altar: nenhum a bastar por durar apenas um esquecimento, uma rápida excitação casual a torná-los interessantes, o alívio fortuito a dissolvê-lo no mundo implacável das coisas postas. O sonho sem sentido reproduzia a vida. O amor ausente o levava à beira da cama para o devido diálogo com as tristezas. Graduou-se nos silêncios e na solidão de casa. Adiava-se continuamente por não reconhecer quem seria caso viesse a encontrar-se

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Metade...

Ao longo dos caminhos, tornamo-nos metade. Metade para caber menos. Menos do sofrer, por certo, mas por infeliz (in)consequência, menos do viver e do amar. A metade nos acontece pela distância que criamos entre nós e o outro, entre nós e a própria vida. Quem se faz metade, anestesia-se para mais facilmente despedir o que o consome. Deixamos de sentir urgências em existir e pouco passa a nos devorar, a não ser nossa própria metade. Ignoramos as alturas do Amor, não mais sabendo a dor da queda, tampouco as nossas liberdades. (Não é pelo risco de cairmos no precipício que sabemos dos nossos voos?) Quem é metade, metade é para não se arriscar nos apuros de ser inteiro. Ser metade é sofrer menos, sendo menos feliz inclusive. Aquele que é metade garante não cair com a cara no chão nem trocar os pés pelas mãos, pois não sairá de casa, da casca, nem de si. Há quem escolheu ser metade porque um dia doou seu inteiro ao Amor que (se) partiu. Então não mais se permite, não se apega, não se queima e não se cura. Não morre, mas também não recomeça. Quantos de nós não escolhe morar neste conforto que faz a vida e o coração não pedir muito da gente? Aquilo que dói, facilmente se resolve. O amor, pela metade, abandona-se. O desejo, pela metade, engole-se. A possibilidade de fuga torna-se grande, nesta monótona linha reta sem os interessantes becos sem saída no labirinto das paixões. Dispensamos as riquezas dos encontros por não querermos lidar com os encargos que a vida junto nos cobra. E a única que sussurra entre os silêncios que instalamos à força em nossas marés é a tristeza que intui merecermos mais do que nos tornamos. Tornamo-nos hábeis em manter um pé atrás dentro da armadura emocional que construímos com o tempo que não aproveitamos em ressignificar nossas dores e seguirmos adiante. Encarcerados em nós, nada nos queimará infernalmente - nem deliciosamente - como antes. As asas não precisarão ser largas, e o mergulho nem tão profundo. Preenchendo-nos com vazios, focando trivialidades e fugazes prazeres, passamos às emoções em rodízio. Pela nossa fragilidade, queremos facilidades. Pelo nosso endurecimento, exigimos a qualquer custo a leveza. Assim, fugimos da responsabilidade de acolher o Amor com todas as suas sombras e deveres, porque o Amor nos convoca às inteirezas. O Amor rasga, mas também costura. Evitamos entrar e nos dedicarmos porque não queremos mais doer como um dia doemos. E o amadurecimento que deveria fazer nossa transição para dias melhores, não acontece porque resolvemos não despertar do sonho de ser semente. Quem sabe um dia lembremos que a beleza da flor aconteceu porque ela ousou ser cor entre as tormentas.

(Texto do meu livro "Teoria Geral do Desassossego", publicado pela Ed. Penalux)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Subtração...

A tristeza é uma subtração dos dias dentro de mim; uma anulação do tempo para sentir-me vivo. Viro o rosto para o que mora comigo ainda que diariamente beba daquilo que ignoro. Vejo-me cheio de razões para tudo mas que para nada me aliviam. Aconteço-me sem planejamentos, como uma insistência em manter-me cego e adiado.

O descaso da chuva é sempre para mim.